** Rui Boavida, Agência Lusa **
Pequim, 22 Ago (Lusa) - A medalha de ouro no triplo salto que Nelson Évora hoje vai receber faz levantar as "nuvens negras" que se abatiam sobre os atletas portugueses que vieram aos Jogos Olímpicos de Pequim2008, trazendo de volta um espírito de alegria, referem membros da equipa olímpica de Portugal.
Quando o sentimento de frustração e a tristeza se abatiam sobre os atletas olímpicos portugueses, a medalha de Nélson Évora foi uma "lufada de ar fresco", como lhe chamou Susana Feitor, ela própria a "ressacar", disse, da desistência na prova dos 20 km marcha na quinta-feira, mesmo dia do ouro português no triplo salto.
"Estava mesmo à frente da caixa de saltos. Filmei e fotografei, porque foi um dia de grande emoção para mim. Tinha a cabeça cheia de perguntas e não deixava de recordar o dia. Nada como uma lufada de ar fresco para acalmar e conseguir dormir", afirmou a atleta, que participou em Pequim nos seus quintos Jogos Olímpicos.
Ainda com a angústia de comparar o ouro de Nelson Évora com a sua própria desistência, Susana Feitor disse ver em Nelson Évora a prova de que "nada é impossível".
"O Nelson trouxe-nos alegria. Eu sentia-me muito triste comigo mesmo porque queria ter tido o meu momento em Pequim e ao mesmo tempo sentia 'boa Nelson, é assim mesmo, caramba'", disse a atleta em declarações à agência Lusa.
Com um salto de 17,67 metros ao quarto ensaio, Nélson Évora conquistou a 22ª medalha portuguesa na história dos Jogos Olímpicos, a quarta de ouro, metal que Portugal já não via desde que Fernanda Ribeiro chegou ao mais alto lugar no pódio nos 10.000 metros nos Jogos Olímpicos de Atlanta96.
João Campos foi o treinador de Fernanda Ribeiro em Atenas e disse hoje que ao ver na televisão a prova de Nelson Évora, a primeira coisa que fez foi escrever no quadro das instalações portuguesas da Aldeia Olímpica de Pequim a frase "bem-vindo ao clube dos campeões olímpicos", dirigido a João Ganço, o treinador do recém-coroado campeão olímpico português.
"Porque ao atleta toda a gente deu os parabéns, merecidos é claro, mas o treinador também merece", explicou João Campos, que descreveu o ambiente entre a equipa portuguesa na Aldeia Olímpica antes da medalha de Nelson Évora.
"Quem está no dia a dia da aldeia vê a frustração com que as pessoas ficam quando perdem. Vimos muita gente a chorar, muita gente frustrada, muita gente a chorar porque outros colegas não conseguiram os objectivos que tinham", disse o treinador.
Augusto Cardoso vibrou tanto ontem com o salto de Nélson Évora que até chegou hoje adoentando - febres e vómitos - à prova dos 50 km marcha, onde ficou na 40ª posição, mas não se arrepende da decisão de ter ido mais tarde para a cama.
"A prova durou até às 10:30 da noite e nós deveríamos ter ido para a cama às nove horas da noite, mas estávamos ansiosos para que ele ganhasse a medalha de ouro. Hoje acordámos às 04:00 da manhã para aquecer, mas valeu a pena, porque conseguiu o ouro", afirmou Augusto Cardoso.
"Tínhamos estado num ambiente muito triste durante estes dias porque os nossos colegas valiam medalhas e qualquer coisa calhava mal. Até que enfim que o Nélson conseguiu a medalha de ouro, para todos os portugueses", acrescentou.
O atletismo continua assim, com o triplo salto de Pequim, a ser a única modalidade a render medalhas de ouro a Portugal, algo que o treinador João Campos diz não ser puro acaso.
"Temos bons atletas, boa organização e bons treinadores. Isto é fundamental e torna mais fácil atingir os objectivos que pretendemos. E o Nélson Évora reflecte isso", considerou.
RBV
Lusa/fim
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